O projecto desenvolver-se-á no contexto da construção de uma habitação, tipo moradia isolada, a construir na zona de vinhedo entre Pinhal Novo e Poceirão, Concelho de Palmela. A particularidade do projecto de arquitectura reside em não ter cliente à partida. Trata-se de uma encomenda por parte de uma empresa de construção de pequena dimensão, com o objectivo de comercialização futura, após conclusão, ou, eventualmente, durante a construção, se o cliente certo aparecer. A não existência de cliente à partida, a grande liberdade da encomenda, em que a única condição imposta pelo promotor foi de ordem económica, e a natureza do local de implantação, sem envolvente próxima construída, determinaram fortemente o projecto de arquitectura e uma expectativa pessoal e profissional especial relativamente a esta obra. Assumi o risco e sujeito-me ao resultado. Como sou um optimista, quero pensar que vai correr tudo bem e que o promotor vai ficar satisfeito, pois o cliente certo vai aparecer e desejar aquela casa.
Mas pode não acontecer. Para garantir o controlo do processo de construção, agora que o projecto foi aprovado, e já que o promotor delegou em mim essa responsabilidade (serei também o técnico responsável pela obra), decidi acompanhá-la de uma maneira especial; para além da assistência que normalmente faço às obras de projectos meus, o que sempre me dá um grande prazer, nasceu a ideia de a monitorizar. A partir da intelectualização dessa ideia, pensei dar visibilidade à experiência fantástica que constitui ver uma obra acontecer até ao momento que nos encontramos dentro do espaço que desenhámos.
Mas não quero fazê-lo do ponto de vista da glorificação da arquitectura como resultado final, mas sim da perspectiva da valorização do trabalho de equipa e do trabalho das pessoas que efectivamente a vierem a construir, dando expressão ao grande prazer que sinto ao inserir-me nessa equipa da construção; foco na obra em si e não no resultado final; O resultado final da obra poderá vir a ser bastante interessante, dado desenvolver-se sobre um programa imaginário, tão normal, simples e flexível, quão estranho, duro e forte na sua expressão arquitectónica; mas o foco deste projecto estará na obra em si, nos processos e técnicas construtivas, nas relações de trabalho e nas pessoas que o realizarem. Se a obra será o resultado final do trabalho da equipa, a visibilidade da equipa deverá ser o resultado final do projecto. O projecto Gente da Casa é a documentação de um processo de trabalho.
GENTE DA CASA
Se à partida quem constrói, constrói quase sempre para outros, também não é menos verdade que, com maior ou menor consciência do facto, todos aqueles intervenientes tem forçosamente uma relação com cada uma das obras em que intervêm, nem que seja estritamente profissional, influenciando também a atmosfera que se vai construindo em torno dela. Por outro lado, estando isso estabelecido, ou não, à partida, a obra reflecte sempre um trabalho necessariamente de equipa e a qualidade da equipa reflecte-se na qualidade final da obra. Uma equipa de trabalho é constituída por pessoas que trazem e deixam na obra sempre um pouco daquilo que as caracteriza como pessoas em situação: Personalidade, enquadramento cultural, conhecimento técnico específico, relação com o trabalho que fazem.
No final da obra, o trabalho de todas estas individualidades mais ou menos conseguido, mais ou menos interessante, mais ou menos visível, funde-se num todo, também mais ou menos conseguido, mais ou menos interessante, mais ou menos visível. A obra torna-se visível e a visibilidade da equipa extingue-se.
Integrado na fase de acompanhamento da obra, trabalho normal dos arquitectos, este projecto terá por método uma monitorização constante da construção e das relações - ligações das pessoas que nela intervierem com a obra. Essa monitorização assentará em três coordenadas de registo (as pessoas, o trabalho e o edifício), paralelas ao longo do decorrer da obra; e numa outra, cujo acompanhamento mais distante, permitirá no final, uma reflexão crítica sobre a relação interna do projecto artístico com a obra no contexto de um tipo de produção arquitectónica presente: de raiz tradicional nos processos construtivos, contemporânea na abordagem ao projecto e à actividade da construção.
1) Caracterização da pessoa e da sua intervenção profissional na obra
Texto – questionário/entrevista, Som e Imagens (das diversas pessoas, das equipas e de toda a equipa).
Entrevista (fotografia e vídeo) Questionário base.
1 - Onde nasceu? 2 – Onde reside? 3 – Como chega à obra? 4 - Que idade tem? 5 - O que faz? 6 - Há quanto tempo? Quando iniciou a actividade? 7 - O que fazia antes (se for o caso)? 8 - Gosta do que faz? 9 - Como caracterizaria a sua relação pessoal com o seu trabalho? (numa frase e depois eventual desenvolvimento se o entrevistado quiser ou o entrevistador achar conveniente e interessante) 10 - Guarda memórias especiais de alguma obra? Porquê? 11 - Quando faz o seu trabalho tem consciência que integra uma equipa? 12 - Que importância atribui a essa consciência do trabalho de equipa? 13 – O que pensa da arquitectura contemporânea? 14 – O que pensa dos arquitectos? 15 – Quem acha que vai comprar esta casa? 16 – O que pensa desta obra? 17 – Quais as suas expectativas relativamente à actividade económica em que está inserido? 18 – Quais as suas perspectivas de trabalho num futuro próximo? 19 – Quais os seus projectos para o futuro?
Partindo deste questionário base, orientador da conversa com cada um dos intervenientes, procurar-se-á conhecer um pouco mais da pessoa, também para além do contexto de trabalho.
2) Acompanhamento da intervenção profissional e performance individual na obra de cada um dos intervenientes.
Texto, Som e Imagem (fotografia e vídeo)
Acompanhamento dos diversos trabalhos executados pelos intervenientes.
Explicitação de técnicas diversas conforme a natureza do trabalho.
Som da obra e conversas em obra com os intervenientes, no âmbito do acompanhamento da obra por parte do arquitecto responsável.
3) Reflexo dessa intervenção no todo da obra
Texto e Imagem
A obra no todo será também fotografada ao longo do tempo, de uma forma sistemática, desde o estado do terreno antes da intervenção, até à conclusão da obra e dos trabalhos, de diferentes pontos de vista.
8 planos fixos no exterior e 4 no interior (a partir da compartimentação definitiva do espaço interior da casa) permitirão ao longo do tempo em que a construção decorrer, acompanhar passo a passo a transformação da obra na casa e os sucessivos reflexos do trabalho dos seus intervenientes nesse processo de transformação, como que construindo-a em paralelo por sucessivas camadas de imagem.
4) Reflexão crítica sobre o projecto
3 Textos, 3 Autores. A síntese do arquitecto autor do projecto, a visão exterior do fotógrafo convidado, a visão crítica de um observador – crítico convidado, auditor da relação do projecto artístico com a obra.
Notas: O registo de imagens será feito em simultâneo pelo fotógrafo convidado e pelo director do projecto na qualidade de arquitecto responsável pela obra e no âmbito do seu acompanhamento normal da mesma como arquitecto. Se umas documentarão a execução da obra no sentido técnico profissional do trabalho do arquitecto, de uma forma mais próxima, mais pessoal e mais impressionista, as outras terão a importância e relevância de um olhar exterior, capaz de sondar a invisibilidade detectável da relação da pessoa com o seu trabalho e do reflexo desse trabalho no todo da obra.
Já o vídeo é da responsabilidade do director do projecto Carlos Gomes, também um dos operadores de câmara, em co-realização com Ruy Otero, outro dos operadores de câmara. Imagens e situações de carácter mais espontâneo com outras mais preparadas e encenadas, nomeadamente as entrevistas e filmagens em obra especiais – técnicas construtivas, situações de reunião em obra, etc.
Objectivos profissionais
Sintetizar uma experiência de 10 anos como profissional – arquitecto, com outras experiências e formações artísticas paralelas, nomeadamente com o trabalho desenvolvido no campo da cenografia e da exploração da linguagem vídeo.
Valorizar os diversos intervenientes na obra, escutando-os e dando importância ao seu trabalho.
Possibilitar outros pontos de vista sobre o resultado final de uma obra de arquitectura para além e aquém das imagens finais que a divulgam depois de concluída.
Traçar um quadro profissional e cultural da equipa de construção como amostra das pessoas e empresas que actuam no sector da construção em Portugal e a uma determinada escala.
Juntar no final os diversos intervenientes na obra, dando visibilidade à totalidade da equipa; proporcionando a troca de impressões e um conhecimento pessoal que muitas vezes não chega a existir durante o tempo da obra entre os diversos intervenientes, celebrando a conclusão de um trabalho e realizando de facto a ideia de equipa.
Objectivos artísticos
Aprofundar e sistematizar uma metodologia própria de acompanhamento da obra tendo em vista objectivos artísticos, para além dos estritamente relacionados com o desempenho da profissão de arquitecto.
Iniciar um percurso artístico, tendo como base e campo de trabalho a arquitectura e a sua materialização e como input a necessidade pessoal de estabelecer ligações operativas entre os aspectos mais técnicoprofissionais da profissão e áreas de criação mais artísticas que tenho vindo pontualmente a trabalhar, nomeadamente o vídeo e a cenografia.
Aprofundar um entendimento estético e ético do papel do arquitecto e do artista, através de uma determinada visão/percepção do carácter indutor do espaço relativamente ao comportamento das pessoas e de uma conjugação/sequência de imagens na percepção de uma situação espacial, de um acontecimento ou da complexidade de um sistema de relações. Trabalhar o que se percepciona, através do como se percepciona, dissecando e descontruindo à partida os sentidos, nomeadamente a visão.
Construir a primeira exposição individual do meu trabalho e o primeiro filme documentário, conciliando uma vocação artística com o prazer de ser arquitecto e estar em obra.
Exposição - Fotografia, textos e outros suportes gráficos.
Imagens recolhidas ao longo da obra de todos os elementos da equipa, caracterizados, inseridos no seu figurino profissional e no contexto do seu trabalho especifico. No final da obra seria possível fazer uma fotografia da equipa, com todos os seus elementos, de acordo com o figurino individual de cada um.
Imagens sequência da obra em construção, desde o estado do terreno e envolvente original, até à conclusão dos trabalhos e entrega da obra ao cliente final ou ao promotor, caso não se venda entretanto.
Documentário
Baseado nas filmagens vídeo, da obra e outras, e na recolha de entrevistas aos intervenientes, o documentário deverá revelar a atmosfera da obra e a relação das pessoas que nela intervierem entre si e com o trabalho que fazem. Deverá ser um retrato sensível daquele grupo de profissionais como os habitantes provisórios da casa sem cliente.
No âmbito da exposição, o documentário funcionará como introdução e criação de uma atmosfera específica para a exposição. A exposição contará sempre com o documentário. Já o documentário poderá e deverá ser apresentado autonomamente.